segunda-feira, 2 de março de 2009

O Iluminar da Nova Bolívia


Chuquiagu Marka (La Paz) , Qullasuyu (Bolívia), 25 de Janeiro de 2009




Por Álvaro Zarate Huayta



De seus antepassados roubaram-lhes até a alma. A seus tataravós encerraram nas minas de prata e estanho para acabar com sua memória e sua cultura. A seus bisavôs e bisavós converteram em serventes nas fazendas, em criados dos patrões. Seus avós foram usados em uma luta que não era a sua: a Guerra Federal e a do Chaco. Seus pais conquistaram com suas vidas a Democracia que depois os aniquilou até outubro de 2003. Durante séculos silenciaram seu pensamento, depreciaram suas línguas, sua história; tentaram apagar sua memória para apagá-los do mapa. Agüentaram em silêncio. Viveram como “seres inferiores”, sem o serem, e viveram como inquilinos em suas próprias terras. Sendo herdeiros naturais, jamais exerceram o poder, nem se beneficiaram dos frutos de suas terras. Depois de séculos de humilhação, finalmente são visíveis, voltaram e são milhões.


Antes que Evo Morales fosse juramentado como novo mandatário da Bolívia, os setores conservadores e racistas não lhe prognosticavam uma boa gestão e apostavam que seu mandato duraria alguns meses. Não obstante, já estamos a três anos de governo do Presidente Evo Morales e o processo de transformação avança irreversivelmente. São importantes as medidas adotadas pelo governo nos quatro pilares do Plano Nacional de Desenvolvimento: Bolívia Digna, Bolívia Democrática, Bolívia Produtiva e Bolívia Soberana. Na atual conjuntura, tenta-se consolidar os alicerces de uma Nova Bolívia: uma Nação Includente, Democrática, Indígena Andina Amazônica e, sobretudo, com valores profundamente Humanistas, nascidos na Pluralidade das Nações.


Por quê?

Não houve uma participação efetiva da maioria indígena. A política era patrimônio exclusivo da casta crioula mestiça, que jamais tentou construir uma Bolívia pujante e com dignidade. Viviam das dádivas que lhes lançavam as multinacionais e os grupos de poder externos. Por isso, os indígenas e mestiços, os chamados “cholos”, empobrecidos, decidiram acabar com esta ordem colonial das coisas e caminhar rumo a uma sociedade onde todos sejam iguais e ninguém valha mais pela cor da pele, pelo sobrenome, pela crença religiosa e/ou pela ideologia que professa.


Como conseguir isso?

Através da Assembléia Constituinte que iniciou suas deliberações em agosto de 2006, e desde o inicio foi acossada pelos setores conservadores e racistas agrupados nos Comitês Cívicos e nas sedes de governo departamentais (estaduais) do oriente da Bolívia. Estas entidades, mais os partidos tradicionais neoliberais, então minorias na Assembléia, apresentaram uma seria de artimanhas para que aquela fracassasse, entre elas propor que a nova carta magna deveria ser aprovada por dois terços dos constituintes. Os representantes do Movimento ao Socialismo (MAS) e outras agrupações surgidas do povo foram tolerantes, e, superado este obstáculo, os setores minoritários e conservadores colocaram sobre o tapete o artifício da capitalidade da Bolívia: que a Assembléia trasladasse a capital de La Paz (Norte) a Sucre (Sul), com o que revolveriam velhas cicatrizes que, em 1898, havia originado a chamada Guerra Federal entre sulistas e nortistas, permitindo a La Paz constituir-se em sede de governo e a Sucre como a Capital histórica. Ante a obstinação dessa minoria conservadora que controla os meios de comunicação, os movimentos sociais, povos indígenas e setores populares, tinham que confiar em sua própria força, em que pese os inúmeros obstáculos.


Os Excluídos assumem o poder

Pude vê-los em Sucre, a capital de séculos de racismo e exclusão que sempre depreciou esta identidade multiétnica e pluricultural. Em Oruro, na Constituinte, os escutei, pela primeira vez, falar do país que querem, de suas terras, do futuro que sonham para seus filhos e netos. Pude vê-los com seus aguayos (tecido estampado colorido), seus ajsus (espécie de bata feminina), suas polleras (saias usadas pelas mulheres nativas), seus ponchos de diferentes cores, suas abarcas (espécie de alpargatas), seus rebozos (espécie de mantilha), seus chapéus de copa, os vi como levantavam a mão. Por fim, tiveram voz os silenciados, os considerados “seres inferiores”, os invisibilizados, os relegados, os humanos sem futuro, sem ser, sem saber que os outros não conheciam o que eles conhecem. Escutei a Presidenta da Assembléia Constituinte, Silvia Lazarte, com sua voz autoritária, pedindo que baixassem e levantassem a mão para aprovar ou reprovar cada artigo da nova Constituição Política do Estado. Pude ouvi-la expressar sua paixão ilimitada pela Bolívia. Escutei suas vozes, sei como soam, sei o timbre que têm, são roucas e agudas.


Antes, somente escutava suas vozes confinadas em suas canções, em seu folclore, como o chamam os “cultos”. Foi a primeira vez que os escutei falar do país que querem, do futuro possível. Romperam seu silencio e recobraram sua memória. Possivelmente estão equivocados. Têm o direito de equivocar-se. Por acaso os outros, os autodenominados democratas, não se equivocaram durante séculos?

Os sensíveis defensores do protocolo criticam suas formas, sua vestimenta, suas palavras, seus acullicos (efeito de mascar “bolo” de folhas de coca), suas idéias. Julgam-nos a partir de sua própria cultura, a partir de seu etnocentrismo. Desqualificam-nos a partir de suas próprias regras, a partir de suas próprias leis, a partir de suas dezesseis constituições, a partir de seu conforto político, a partir de sua ideologia. Possivelmente têm razão em suas críticas, mas não em seu menosprezo.


Nas deliberações da Assembléia Constituinte em Sucre, universitários gritavam: “índios fora desta cidade”, manifestando seu racismo que permanecia latente, apesar dos ares modernos e civilizatórios que eles dizem defender. O racismo está na ordem do dia na Bolívia. Em meados de dezembro de 2007, o prefeito de Santa Cruz, Percy Fernández, sinalizou que o governo de Evo Morales quer o poder para toda a “indianada”. O governador Rubén Costas tipificou o presidente venezuelano como “macaco maior”, numa clara alusão a que o presidente Boliviano era o “macaco menor”; em tempos coloniais anteriores, os colonizadores consideravam o índio como um homúnculo, bárbaro, selvagem, besta, macaco. Os descendentes desses colonizadores, também de espírito colonial, chamam agora de macaco, ao índio que emerge para transformar esta sociedade racista e discriminadora.


“O que não salta é lhama!” ouvia-se nas ruas de Sucre, animalizando os indígenas. Se o que não salta é lhama, o que salta é o quê? Talvez uma pessoa que ainda imagina, nos dias atuais, ter em suas veias “sangue azul”, diferente dos demais mortais. O desprezo, porém, não é somente pela natureza humana, como também pela natureza animal, sem sequer reflexionar que todos os seres humanos somos extensão no tempo e espaço, da mesma natureza animal à qual nossa “classe intelectual” despreza. “A Ciência, depois de estudar o ácido desoxirribonucléico (ADN) do ser humano, concluiu que os macacos são nossos parentes. E mais, a mesma ciência diz que as ratazanas são também familiares porque sua composição genética é quase idêntica, em 99%, aos genes de Rubén Costas, Hugo Chávez, Evo Morales, Nelson Mandela, você, ele, ela, nós e, inclusive, eu.” (La Prensa: 29/10/07). E a lhama? Ocorre que uma das personagens míticas indígenas na Colônia foi uma lhama que se converteu em ser humano para escapar dos colonizadores. Tal personagem, na literatura aymara/ quéchua é conhecida como Pedro Ultímala. Quando os colonizadores lhe perguntavam seu nome, ele dizia chamar-se “Lhama-lhama” e de sobrenome “wallpa-jama” (esterco de galinha). O “Lhama-lhama” tem inúmeras aventuras nas quais ressalta o ser indígena e ridiculariza a conduta e pensamento do colonizador.


Os ecos das vozes indígenas persistem, retumbam em cada rincão, nas casas de adobe e nas choupanas. Viajarão pelo tempo, serão ouvidos os que vêm e os que esperam sua vez para ser parte do país, da Bolívia usurpada por aqueles que a querem como sua propriedade privada e não como propriedade pública. Os escutamos, finalmente, falar de seu país, os vemos aprovar uma Constituição, fizeram o mesmo que os “doutorzinhos” em 1926; e pariram “uma República sem índios nem mulheres”. Eles e elas, que viram, durante séculos, sua sorte ser decidida do outro lado, saltaram, agora, a este lado e são protagonistas. Quinhentos anos depois, darão à luz e iluminarão uma Nova Bolívia Multicultural, Includente, Comunitária, Plural, Pacifista, e Humanista. Retornou-se o tempo de harmonia e equilíbrio e Bolívia é um exemplo de dignidade coletiva. A Assembléia Constituinte concluiu seu trabalho satisfatoriamente. No final de dezembro de 2007, em Oruro, foi aprovada.


Faltava, todavia, a aprovação no Congresso e foi necessário uma Marcha Histórica encabeçada pelo Presidente Evo Morales, onde milhões de vozes e rostos, até então clandestinos, pediam a aprovação por parte do Congresso de um texto compatibilizado entre a Assembléia Constituinte e o Congresso. Milhões de pessoas chegaram ao Centro de Poder, vigiando a sessão que se realizava no Congresso. Nesta ocasião, pude ver a fortaleza e o carinho desmedido destas maiorias indígenas populares, pois não era, como acusavam os meios de comunicação, uma “Constituição MASista”, e sim do povo de Bolívia, da maioria discriminada, que dormiu e amanheceu na Praça Murillo. O Presidente Evo Morales, inclusive, ficou com o povo por toda a noite. Ao meio-dia se deu o acordo e o Congresso havia aprovado um texto compatibilizado, com muitas reformas, mas com a definição da data para realização da consulta popular, através de um referendo, onde se questionaria a aprovação, ou não, da nova carta magna: 25 de Janeiro de 2009.


AMANHECEU NA METADE DA NOITE: ESPERANDO O JACHA URU DEL PACHAKUTI [1]


25 de Janeiro de 2009. – Desde as primeiras horas, coloco, como todo apaixonado da mais universal das paixões, minha velha camiseta xeneize[2], que é o manto sagrado, minha segunda pele, com as cores da alma, o outro peito; E, por dentro, minha camisa do Che e uma bolsa de aguayo andino que me trazem à lembrança o cheiro de minha terra. O grito de liberdade de quinhentos anos se produziria na Bolívia, essa era a questão...

Na Bolívia se iniciam as eleições mais difíceis de sus história republicana, um resultado que ninguém, sequer as pesquisas sabiam o que sucederia. Dias antes, a Igreja Católica expressava que se havia de votar por Deus ou por Evo, que era uma Constituição que desconhecia a fé verdadeira de Deus, que o novo Estado perseguiria os justos, coisa para os hereges Pachamamicos. Isto me fez recordar a época da Santa Inquisição Católica Apostólica Romana e Espanhola que aniquilou, exterminou e assassinou mais de cinqüenta milhões de indígenas, no maior genocídio da Historia, em nome de um Deus que agora exigia um voto para manter seus privilégios, historia comum em quinhentos e dezessete anos de colonialismo e cento e oitenta anos de vida republicana. Agora, os bolivianos disputávamos no campo eleitoral, o direito de existir, talvez pela primeira vez em quinhentos anos. Nas ruas se produziam enfrentamentos daqueles que perderiam privilégios nas praças de classes acomodadas e “gente de bem” contra os índios selvagens que não têm temor a Deus. Era a Ordem estabelecida querendo manter o “Estado das Coisas”.


Com a aprovação da Nova Constituição, fica para trás o Estado colonial, estes orgulhosos filhos desta terra andino-amazônica, que com sua resistência e seu esforço, com a aprovação desta Constituição nas urnas, deixaram para trás e enterraram na Historia, séculos de exclusão, de racismo e discriminação, séculos de desprezo por esta identidade multinacional e pluricultural.

Mas esta noite quem joga é a lembrança dos sonhadores, mais de 60% disse SIM à Nova Constituição e um percentual similar votou pela eliminação do latifúndio de mais de 5000 hectares como a área máxima de posse de terra. Certos sentimentos que nunca se sabem se são vivos ou se estão mortos, me lembro nestas horas das ruas de La Paz, todas as janelas onde cantores noturnos cantam o amor a este novo estado e com a consolidação de trinta e seis nações, em convivência harmônica entre todos. Isto não é uma elegia, é um romance e uma ação de graças por dar paixão aos meus anseios, me lembra o mundo de adolescente, um sonho, a maldição, a blasfêmia de um continente... Nas ruas de La Paz, eu estava a ponto de viver o epíteto político de minha geração.

No mundo andino-amazônico não existe a conceituação de “estranho”, mas sim que todos são uma mesma família, pois concebem cada parte do universo como importante. Nestes quinhentos anos, os homens europeus e ocidentais nos diziam que o homem “é o rei da criação” e pensou que tinha o direito de fazer e desfazer o que encontrar em seu caminho, entendendo que somente ele era importante, quando, na realidade, todos fazemos parte de um todo, onde a falta de uma parte causa desequilíbrio. Constitucionalizou-se a visão de nossas nações como entendemos o mundo e como se expressam as sociedades nos Andes. Nossa sociedade tem características milenares próprias e originárias. Nossos ancestrais tinham uma visão cósmica do universo, do céu o pachakama ou pachatata e a força telúrica da terra “a pachamamae da união destas energias se gera toda forma de existência e converge o processo da vida.


O homem andino, ou o equivocadamente chamado “Índio” vem a ser a síntese de ambas energias. É o poente, o centro taypi da força cósmica e telúrica. Seu mundo tem múltiplos planos e significados, tanto de tempo como de espaço, pois introduz em sua vida comum o universo que o rodeia e supera a natureza não a transformando ou a destruindo como o homem ocidental, mas tendo a capacidade de participar ativamente com ela. Une-se e desenvolve-se com ela em harmonia e equilíbrio com seu universo. O homem andino acredita na harmonia, equilíbrio e igualdade de todos. Crê na união e na convergência das duas forças dentro de sua mesma sociedade, dentro das duas forças, o “chacha – warmi” (homem e mulher) forma o “jaque” (união, par primordial, dualidade perfeita), o que se referirá como a complementaridade do casal na sociedade.

O processo mais importante para o desenvolvimento do país e de todos os bolivianos é a identificação coletiva, ou encontrar a alma do povo da nação. Na comunidade todos têm que estar protegidos pelas instituições andinas “ayllu e ayni” . São instituições que nos unificam. O ayllu constitui um retorno à memória coletiva ancestral, é viver em harmonia e equilíbrio. E isto não é um fator biológico racial, mas sim o fato de começar a sentir pelos demais, trata-se de um processo consciente, sem tempo, sem idade, sem lugar. É a consciência do ayni, o chamado da Mãe Terra, tão forte e que se tem feito sentir nestes dias tão duros que nos impele a viver o mundo e assumir este desafio com a história. Devemos reconhecer e fazer respeitar esta forma de ver o mundo e entender a vida, a sabedoria e força ancestral forjada e mantida por gerações. Entender esta historia ancestral não é somente uma retrospeção do passado, mas sim compreender a dinâmica da vida presente e do futuro da nação, é recuperar os valores eternos da vida e a alma dos povos originários.

A Whiphala (bandeira andina) é símbolo da nação. Nas autonomias indígenas são reconhecidos princípios filosóficos como o “Suma Qamana”(Viver Bem). A trilogia “ama sua ama lulla ama quella” (“Não seja ladrão, não seja mentiroso, não seja frouxo”) são princípios supremos do Novo Estado. Nos tornamos, juntamente com Suíça e Costa Rica, o terceiro estado do mundo que renuncia à guerra. Trataremos de eliminar e sancionar a toda classe de violência. Renunciou-se, inclusive, a violência legal do Estado, estabelecendo-se a Cultura da Vida e do Diálogo.


É fundamental o processo que encabeça o Presidente Indígena Evo Morales Ayma. Não apenas para a Bolívia como para o mundo inteiro que está doente de racismo, ainda que isto siga sendo uma enfermidade que raramente é confessada por nossos governos. A Bolívia é parte de mim. Está em mim, por onde eu vá, por onde eu ande, porque está em meus sonhos de construtor e de ideólogo. O mundo inteiro padece de uma ditadura do medo que emite gases paralisantes, um medo de recordar, de viver, de ser mais humano, sobretudo, medo de ser, de nos reconhecermos em toda nossa esplêndida e poderosa plenitude. Nossos países nasceram condenados a uma sorte de fatalidade do medo que nos impede de nos vermos como somos e como podemos ser. O que aconteceu na Bolívia nos mostra que esse medo de ser o que podemos ser, não é um inimigo invencível; o racismo não é uma fatalidade do destino, não estamos condenados a repetir a historia. Nos treinaram a andar em cadeira de rodas e, agora, estamos recuperando a possibilidade e a energia na América Latina, para poder caminhar com nossas próprias pernas, pensar com nossas próprias cabeças e sentir com nossos próprios corações. Todas as constituições latinoamericanas foram feitas “por poucos e para muito poucos, e geraram nações onde as maiorias estavam e seguem sendo malditas”. O mundo atual se divide, sobretudo, “entre indignos e indignados, e já se saberá de que lado cada qual quer ou pode estar”. Este é o Preâmbulo do Jacha Uru, o Grande Dia que vai chegar e que será de alegria. Viva, desperta esta nova Bolívia, que viva o iluminar desta Bolívia possível, que viva o nascimento de outro mundo possível. Por isto, a Bolívia é importante para o mundo, “é um ato de dignidade coletiva”. A poucos dias, porém, do nascimento do sol que anuncia o “Novo Pachakuti”, a maldição e a blasfêmia de um continente estão por terminar, pois em quinhentos anos, a dor e o sofrimento terminou e agora começamos a construir uma Nova Nação.


Tradução: Wilson dos Santos


[1] Jacha uru Del Pachakuti: O grande dia do Pachakuti - despertar de uma nova consciência, sincronizada com as energias revitalizadoras da Pachamama (Mãe Terra) e Viracocha (Pai Sol).

[2] Xeneise – Significa Genovês. Apelido para o time do Boca Juniors, devido à origem de seus fundadores.

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